Perfis da urbe:
Essa é a história da Nerí, natural de Petrolina e há muitos anos, moradora de rua de Sampa. Aposentada por invalidez, ela recebe mensalmente um salário mínimo, o insuficiente para sustentar à ela e ao filho, portador de esquizofrenia, com 23 anos. Ele tem atendimento gratuito no CAPS, (Centro de Atenção Psicossocial) na Rua Itapeva e até suas injeções de Aldol são administradas lá mesmo. Ele não estava com ela, tinha ido "passear" com os amigos. Indaguei se ele é usuário de drogas, ela negou, contando que, apenas usa maconha, demonstrando ser uma mãe aliviada. Segundo ela, o rapaz consegue a maconha com os amigos mas, ela fica de olho prá que ele não entre no crack, e caso isso aconteça, ela deixará de acompanhar ele e viver nas ruas. Eles dormem onde é possível, o filho se recusa a estar entre quatro paredes, e essa mania inviabiliza a permanência deles em albergues e afins. Prá tomar banho e lavar roupas, aí sim, ela se dirige a Praça 14 Bis e lá tem um pouco de conforto. Tive a chance de conversar com ela numa praça que eu adoro, próxima ao Trianon e pude saber bastante da vida dela e do filho. Perguntei como ela faz prá comer e ela dissse que os restaurantes da região, todos os dias, fornecem comida prá ela e para o filho. Por conta da doença do garoto, todos os funcionários dos restaurantes já conhecem as manias dele: ele não gosta de comer qualquer comida, prefere aquela que foi colocada recentemente na quentinha. Além disso, ela disse que ele é bipolar, pois é capaz de comer lixo se for preciso e em outros dias, fazer luxo na hora de escolher o cardápio. Logo no meio do nosso papo, ele chegou, acompanhado de outros três moços, muito bem vestidos. Ela me alertou prá não falar nada sobre a doença dele pois, ele não gosta nem um pouco do assunto. Parecia agressivo, mas é o jeito dele, um bebê grande, como ela carinhosamente se refere à ele. Cabelo estilo punk, camiseta e casaco pretos, calça jeans, um cuturno novinho, que ela se orgulha de ter pago cem reais prá satisfazer o gosto dele. Os amigos logo se despediram e ele ocupou o banco que era dela e de suas sacolas, deitando e logo tratou de abrir um caderno. Parecia desenhar, se perder entre letras e rabiscos. Eu me despedi, tava na minha hora mas, fiquei curiosa prá saber mais sobre eles. Ao voltar do dentista, no prédio em frente a praça, ainda dei uma espiada e ele continuava no mesmo banco, na mesma posição. Voltei prá fazer a foto, bem discretamente. Ela não estava e me arrependi por não ter feito uma imagem sequer dela. No caminho pela Alameda Santos, ela surgiu na minha frente e aí fiz o convite para as fotos. Ela adorou, posou prá mim com toda naturalidade. Ela tinha ido tratar de buscar a comida do filhote dela. Mãe parece tudo igual mesmo.
18/02/2011
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Os melhores trechos de "São Paulo por Washington Oliveto"
Em alguns momentos, São Paulo se acha o máximo, em outros um horror. Nenhum lugar do planeta é tão maniqueísta.
São Paulo teve o bom senso de imitar os botequins cariocas, e agora são os cariocas que andam imitando as suas imitações paulistanas.
São Paulo teve o mau senso de ser a primeira cidade brasileira a importar a CowParade, uma colonizada e pavorosa manifestação de subarte urbana, e agora o Rio faz o mesmo.
São Paulo se poluiu visualmente com a CowParade, mas se despoluiu com o Projeto Cidade Limpa. Agora tem de começar urgentemente a despoluir o Tietê para valer, coisa que os ingleses já provaram ser perfeitamente possível com o Tâmisa.
São Paulo teve o bom senso de imitar os botequins cariocas, e agora são os cariocas que andam imitando as suas imitações paulistanas.
São Paulo teve o mau senso de ser a primeira cidade brasileira a importar a CowParade, uma colonizada e pavorosa manifestação de subarte urbana, e agora o Rio faz o mesmo.
São Paulo se poluiu visualmente com a CowParade, mas se despoluiu com o Projeto Cidade Limpa. Agora tem de começar urgentemente a despoluir o Tietê para valer, coisa que os ingleses já provaram ser perfeitamente possível com o Tâmisa.
São Paulo faz pizzas melhores que as de Nápoles, sushis melhores que os de Tóquio, lagareiras melhores que as de Lisboa e pastéis de feira melhores que os de Paris, até porque em Paris não existem pastéis, muito menos os de feira.
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São Paulo abandonada - Jornal da Cultura
O sonho encheu a noite
Extravasou pro meu dia
Encheu minha vida
E é dele que eu vou viver
Porque sonho não morre.
Adélia Prado
Minha alma está como as ruas da cidade
Paulista quando cai a garoa...
Pelas suas calçadas
De tristezas molhadas,
Caminha, à toa,
A grande multidão que minha alma povoa.
Ilka Maia
Cidade da Garoa



